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Conversando com Tê - Sonho em Prelúdio

Por Tê Barbosa - 01/04/2009

Homenagem à Vinícius de Moraes

Havia sido um longo e cansativo dia. Tomei um banho quente e gostoso; coloquei preguiçosamente um pijama e deixei-me ficar algum tempo sem pensar em nada. Acendo um cigarro, pouco a pouco meu corpo relaxa e abandona o ar tenso dos afazeres diários. Meus olhos acompanham a fumaça do cigarro, brincando de adivinhar letras, figuras, pedaços de quebra-cabeça. Mergulho em divagações em um tranqüilo passeio entre os limites da minha infância e adolescência, como rebuscando sonhos esquecidos no fundo da gaveta.

O que escrever sobre Vinícius? Que é de Moraes; que vivia fazendo “versinhos”; que gostava de dançar e que, definitivamente, não gostava de homem avarento ou grosseiro com mulher, pois que a ela se devia “amar até morrer”. Então, o que dizer de Vinícius? Persisto. Insisto. Persigo o sonho. Súdita, a luz se fez. E clara! Por que não falar, sem medo e segredo, da vez em que estivemos apaixonados, fugaz affair passado, o que aqui entre nós, foi amor à primeira poesia. Pois é, vocês sabem como é essa coisa de festa, noite de autógrafos, concursos, festivais, rodas de samba, boemia e, no final, um fala do outro, outro fala de um e todos acabam de estranha maneira se conhecendo com certa intimidade.

E foi assim que, Vinícius e eu, nos sabíamos existir quando vencidas as apresentações formais – os normais apertos de mãos e os disfarçados sorrisos faiscantes, nesses mágicos instantes que na vida passam – no salão deslizando, dançávamos de rostos colados ao som de Minha Namorada. Vocês se lembram?

Sonhar não é preciso. Cantar é preciso. Boemizando na noite, Vinícius e eu passamos fecundos, chorando as dores do mundo; cantando os amores; combinando gostos e os doces desgostos; nossa vida discursando a minha vida e a vida que era só dele. De todas as ternuras, Vinícius, com certeza, é a mais virtuosa ventura. Fez-se tão delicado que chegou a ouvir pacientemente as novecentas e noventa e nove palavras vazias, ditas poesias, escritas por mim. Vinícius fez-me sentir linda e Cinderela. Mulher encantada.

Olho o relógio. É madrugada, quase despertar. Despeço-me, com a alma debatendo-se entre os meus dedos, qual distante bandeira a tremular em cais estrangeiro. E toda vez que o luar vem apascentar a noite, ainda vejo seu meigo olhar precipitando-se com saudade, dentro do meu peito. Doloroso é o momento da separação no coração dos enamorados. Pedaços de cristal espalhados no chão, denunciam a despedida.

Mas qual?! Sonhar é o eterno suplício do poeta. Imprevisível é o momento da inspiração. Ela nasce do nada, qual arco sem seta e é assim que o poeta consegue vencer a tênue muralha do tempo entre o real e o imaginário. Como dizia um homem sábio: se de tudo fica um pouco, muito ficou em mim desse sonho louco em que Vinícius se faz presente em sua Ausência...

“Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei...tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, por que eu fui o grande íntimo da       noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.”


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