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Conversando com Tê - Estesia

Por Tê Barbosa - 01/05/2009

ESTESIA – TEU NOME É CECÍLIA
Homenagem à Cecília Meireles
Dedicado à Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni
.

“Quando a Tua carruagem de Sol nascente surgiu na madrugada de minha vida, eu podia extasiar-me com a visão das nuvens coando a claridade do Dia quais plumas oscilantes ao vento...”

Estas palavras escritas pelo poeta indiano Rabindranah Tagore, exprimem em plenitude a emoção que senti ao tomar conhecimento da obra de Cecília Meireles. Assim sendo, foi dos mais leves o encargo de pesquisar esta rápida biografia. Entretanto, procurei me colocar de maneira cautelosa diante das alternativas que facilitariam este pequena, mas emocionante aventura.

Em primeiro lugar, não queria correr o risco de tornar-me tediosamente didática e ainda incorrer em excessivos devaneios, característica inconfundível de um mero aprendiz de poesia que sou, cujo principal defeito é ter, como Cecília mesmo confessa, certa tendência a se ausentar do mundo. Eu sou apaixonada por Cecília Meireles. Ela é o meio e o espelho onde muitas vezes vejo refletida a minha imagem em construção.

Falar em Cecília Meireles é falar do amor e da harmonia entre o mundo e a arte de escrever. É sempre grande a responsabilidade de explanar sobre um poeta como ela, artífice da sensibilidade e do virtuosismo. É com respeito e admiração que procuro compreender o momento de sua criação poética como um exercício da solidão, do expor-se e do conscientizar-se com esforço, mas sem mágoas, da transitoriedade das coisas que vivemos, sentimos ou escrevemos.

As águas não eram estas, há um ano, há um mês, há um dia. Nem as crianças, nem as flores, nem o rosto dos amores... Onde estão águas e festas anteriores? Palavras de Cecília.

Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Capaz de compor baladas, poemas, crônica, cantos, cânticos, ela vai viajando do sensível ao imaginário, não deixando escapar o desempenho de si mesma e de cada ser na mecânica do mundo – fluir, perecer, renovar-se – Soltei meus olhos no elétrico mar azul, cheio de música onde a vida só é possível reinventada... pois poesia é um grito, mas transfigurado. Falar em Cecília é ir ao encontro da fonte viva de seus versos, cuja simplicidade nos encanta e nos enleva e a voz refrata-se nos rios do céu como na água pura se refrata a mão.

Cecília Meireles é completa, densa, é realidade lírica, é dualidade, pluralidade. É eterna. Dize: o vento do meu espírito soprou sobre a vida. E tudo que era efêmero se desfez. E ficaste só tu, que és eterno. E tudo começa de novo, quando se acaba, ratifica a poeta.

Falar em Cecília Meireles me é grato e sublime, sendo impossível não colocar nas entrelinhas calor e emoção, pois do contrário seria como se olhar um antigo quadro sem moldura na parede. Como não admirar alguém que escreve: Dá-me um pouco do teu tesouro, oh criança!...Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre dos meus dedos colore as areias desertas...Ai, palavras, ai, palavras que estranha potência, a vossa! Éreis um corpo na aragem... – sois um homem que se enforca!

Esta carga reatora que é Cecília nos lança a um mundo de beleza e magia, reduzido da atividade crítica ao magnetismo singelo de sua doce presença contida em seus versos de natureza exata e harmoniosa; sua poesia é cristal de transparente luminosidade um cujo interior reflete o latejar da vida. Compreendo que, da fronte aos pés, sou de ausência absoluta; desapareci como aquele – no entanto árduo ritmo que, sobre fingidos cainhos, sustentou a minha passagem desejosa.

É tão fácil admirar Cecília, pois que seus versos são quais bandos de beija-flores e borboletas que trazem mel para a criança que tem fome e a levanta em suas asas.  Palavras de uma grande poeta que acreditava que tudo é um natural armar e desarmar de andaimes entre tempos vagarosos, sonhando arquiteturas.

Senhoras e senhores escolham o seu sonho, pois que eu já realizei o meu.

Cecília Meireles profissionalmente dedicou-se ao magistério. Essencialmente poeta, gostava de caminhar e sentia que seria capaz de dar a volta ao mundo a pé. Adorava a música. Seus poetas preferidos eram todos os bons poetas. Admirava Tagore, Ghandi e Francisco de Assis. Cecília leu Eça de Queirós antes dos treze anos. Escreveu seu primeiro verso aos nove e seu livro primeiro aos dezesseis. Surgiu na Literatura Brasileira em 1922 coincidindo com a eclosão do Movimento Modernista. Em 1965, A Academia Brasileira de Letras concedeu-lhe, pós-mortem, o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. É o poeta brasileiro mais conhecido em Portugal. Cecília amava profundamente crianças, objetos antigos, flores, praias desertas, livros, livros, livros, noite com estrelas e nuvens ao mesmo tempo – gostaria de morrer em paz.

Cecília Meireles nasceu a 7 de novembro de 1901 e partiu deste mundo às 15 horas do dia 9 de novembro de 1964, levando em seu rastro de luz o seu maior Motivo:

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento.

Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
Ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

 

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