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Conversando com Tê - ...Pensando na Chuva Que Cai...


Por Tê Barbosa - 03/10/2008


“Hastes de trigo, cheias de grãos, aprendem a curvar a cabeça.”

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Nesses dias de chove-não-molha, fico eu aqui a pensar na canção: “chove chuva, chove sem parar” e me perguntando – por quê? Tão fora de hora, nos privando do brilho da aurora, se a primavera se fez em setembro e dezembro já desponta ao longe no badalar dos sinos que nos aproximam de Deus-menino.

“Chove chuva, chove sem parar” e eu aqui a pensar, lembrando a canção. Por que será, meu irmão, que apesar dos matizes e cores das flores, da estação dos amores, essa fina chuva desafina decotes, vontades de sol, de soltar a voz e cantar canções de ninar, embalando noites de estrelas e luar, no dedilhar de violões?

Mas essa chuva que cai indolente - insistente, me faz pensar de repente que a vida deu um nó e vem descontente avisar, que é preciso parar de pensar. E finalmente começar a viver o dia presente, sem se preocupar ou achar isso ou aquilo - vou vestir sandália ou vou pra Maracangália? - simplesmente viver cada dia, um após um, deixando a vida seguir o seu curso ou nenhum.

Por outro lado, há que se preocupar com desmoronamentos, deslizamentos de corações partidos, de mágoas sentidas sem aviso prévio e de becos sem saída. Mas voltando ao “por que?” ou “pra que?” tanto pensamento se o que tinha que ser feito antes – não foi? – e mesmo que não tenha sido o bastante, agora só resta esperar e ficar alerta. Mas também não esqueçamos que, tragédias existenciais à parte, chuva é fermento divino que prepara o caminho para o plantio do pão nosso de cada dia.  

Então, por que essa sensação de pássaro ferido em busca de um pouso certo vem bater à porta no melhor da festa quando a esperança avança mansa e o coração entoa canções de sonhos que desejamos e quase pensamos alcançar? A deliciosa esperança que nos faz sentir que o chão que pisamos é macio algodão; que felicidade é o pedaço que nos cabe de fato e de direito nesse latifúndio humano; que é capaz de fazer com que criemos asas, tornando possível o impossível e transformando o sonho em realidade tangível.

Essa sensação sim, é qual fogo que arde devastadoramente nos envolvendo de luz, beleza e magia; a abóbora que vira carruagem; a borralheira que se transforma em Cinderela; a fera que em metamorfose se torna a mais bela. É o olhar extasiado diante de uma gravura quixotesca de Portinari. É ternura que transborda, transcende a física e que Freud não explica. 
 

Aliviando a barra, vamos deixar que a chuva caia por sobre os porquês e ficar, assim, ouvindo o barulho dessa chuva que cai, sonhando acordada, imaginando estrelas por trás do chão molhado que pisamos com nossas incertezas, mazelas, tristezas e fazer desse dia de chuva um momento de enlevo, aconchegada ao delicioso leito da preguiça; a lembrar do primeiro beijo, da vez primeira, do amigo distante, de corpos amantes ou simplesmente ficar olhando a chuva cair lá fora, fertilizando a terra desse mundo abençoado apesar de tudo. Então, deixa a chuva cair que amanhã é outro dia!

Ela ficou maluca, pensa você? Não importa. O que importa é que mesmo assim eu estou feliz por conversar com você. E estar feliz é doce carícia que me arrepia a pele; que me faz sorrir à toa; é a paz do dever cumprido; é o rir a qualquer hora sem que se tenha contado alguma piada engraçada; é o esboçar de um sorriso a uma simples lembrança boa; é o peito que se enche de amor, de tanto amor, ao ver em cada rosto o amigo – e são tantos - que nos conforta e nos transporta à segurança do se saber querida que, mais que felicidade, passa a ser divino - porque só o dedo de Deus é capaz de tocar com tal grandeza o coração da gente.

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