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Conversando com Tê - Aperto no Coração

Por Tê Barbosa 01/09/2008

"Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva."
Bertold Brecht 


Noite dessas, eu acordei de madrugada com o coração apertado. Aquela sensação que parece que se tem uma garra de aço comprimindo o peito. Motivo? Não sei. Talvez seja o inexplicável sinal que subitamente soa bem no fundo da gente, alertando que o relógio da vida não está lá muito ajustado. Por que será?

Fico a pensar se o mal não é físico. Descarto, apesar de alguns senões congênitos, com os quais não possa tranqüilamente conviver. Emocional? É bem provável, pois a vida não tem sido muito light ultimamente. O mesmo de sempre: contas a pagar, responsabilidade familiar, emprego a procurar, o ano por terminar e nada de novo no ar que sinalize com o deitar a cabeça no travesseiro e finalmente relaxar. E isso, já não é novidade. Eu estou até acostumada. Eu e toda a torcida do Flamengo e outros clubes também.

Então, eu me pergunto: de onde vem essa vontade de chorar, essa aflição sem causa aparente e sem destino. De onde vem? Esse gosto amargo na boca, essa sensação de que tudo é pouco, essa respiração entrecortada, essa saudade de alguém ou de alguma coisa que não se sabe quem ou se tem. Tensão, vai e vem. Ombros enterrados como quem carrega nos ombros uma canga de boi. Nossa, que noite!

Acendo a luz do abajur. Entre os dedos um cigarro e em cada tragada...nada. A mão de ferro continua apertando, apertando. Ligo a televisão e em desfile Cines, Supercines, Sonys, Warners, Eurochannels – que sina! - Mtv e me vi rolando na cama e o coração chamando, reclamando atenção. Ajeito os travesseiros. Rezo o Pai Nosso – credo em cruz – Ave Maria. Nada. Raios me partam logo de uma vez. Autocontrole. Exercício respiratório. Do-In. Shantala.

Que nada! Tento ainda mentalizar cores milagrosas: verde alface, azul bebê e rosa quartzo. Fica público e notório que mais uma vez vai dar em nada. Insisto. Teimosia é o forte do meu signo. Touro. Bravo, quando defendo uma causa que acho justa ou quando defendo alguém do meu afeto. Mas, isso não serve de consolo. Concreto é o teto. Levanto da cama, passeio pela cozinha. Desestimulante. A geladeira vazia de atrativas guloseimas. Que pena!

Lembrei então da minha avó e faço água batida com açúcar e “maracujina”. Coisas de gente de antigamente, mas quase sempre de grande sabedoria. Volto ao local do crime. Deito na cama, apago a luz, programo o timer da TV pra dali a duas horas.  Ajeito as cobertas ainda sentindo na boca o gosto do santo remedinho da vovó. E me vem à lembrança flashes da minha infância, quando me sentia tão protegida e confortável com os paparicos dessa mulher que toda criança gostaria de ser neta, numa época em que se acreditava que pra combater a insônia, bom mesmo era contar carneirinhos.

Bocejo. Viro de lado. O coração ainda apertado. O corpo cansado. Sem ninguém ao meu lado ou que me esquente o pé gelado ou que pelo menos me acompanhe, mesmo dormindo, nessa maratona insone. Nessas horas é que desejo ardentemente ter alguém colado. Bocejo. “Maracujina” da vovó. Sozinha. A TV desliga. De repente, me lembro de um acontecimento que me deixou momentaneamente desnorteada e passada a ferro frio, mas que no instante acontecido foi desligado da memória tal o sofrimento causado e a necessidade de cumprir, com rigor, as obrigações profissionais diárias. Traição! Deslealdade, de amigo ou de amiga? Não importa, faz sempre muito mal. De parente então nem se fala! Mas como dizia a minha avó (olha ela aí outra vez): “nem tudo que se pensa se fala” ou ainda o dizer sábio de meu avô: “amizade não se impõe”. Deixa pra lá, um dia, tudo se ajeita e o torto endireita.”

Detectado o motivo de tamanha insônia e desconforto, fecho os olhos às fraquezas humanas e adormeço com a consciência tranqüila de quem, a despeito de tudo e de todos, traz no coração tanto bem. Deus, olhai por todos nós, amém! Êta, soninho bom!

 

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