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Conversando com Tê - Sobre as Chatices Cotidianas

Por Tê Barbosa - 10/08/2008

“Deixe em paz meu coração, que le é um pote até aqui de mágoa
e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água.”

Depois de um desses dias, longos e cansativos, tomei um banho quente e gostoso, pois, afinal, eu, simples mortal, mãe, avó, administradora do lar, profissional da comunicação e outras qualificações afins, também merece.

Ah, a rotineira roda-viva do dia-a-dia! Assim, coloquei preguiçosamente um pijama e recostando em almofadas macias, me deixei ficar algum tempo sem pensar em nada. Acendi um cigarro, esse companheiro facilmente acessado entre dedos e que faz mal, eu sei. Não estou sendo nada politicamente correta, eu sei. Prometo que um dia eu paro, mas enquanto esse dia não chega...

A música suave de um CD do Chico (Buarque, é claro) faz com que meu corpo relaxe e abandone aquele ar tenso dos afazeres diários. Meus olhos acompanham o cigarro, brincando de adivinhar na fumaça letras, imagens, pedaços de quebra-cabeça. Bem-me-quer, mal-me-quer.

Nesse prazeroso torpor, minha mente desperta; mergulha em divagações, em um tranqüilo passeio entre os limites de minha infância e adolescência, como a rebuscar os sonhos esquecidos no fundo da gaveta. Lembrei das cartas que escrevi; daquelas que gostaria de ter recebido e nunca recebi; da velha foto de formatura do ginásio e das flores murchas e envelhecidas guardadas, com cuidado, em páginas especialmente marcadas no livro de antigas trovas de amor.

E com um suspiro profundo assim fiquei, displicentemente, meio sorriso nos lábios, a transitar pelo espaço de minhas lembranças. Dentro dessa visão caleidoscópica, e porque não – confesso – romântica, deslizavam alfinetinhos, cartões postais, miniaturas de bonequinhos travessos – todos esses cadinhos banais de indizível apreço.

Ainda em tempo, como não poderia deixar de faltar em qualquer recordação nostálgica que se preze, reli os tais excitantes bilhetinhos secretos, selando juras de amor eterno e que hoje, já nem sei mais o endereço pra mandar a resposta e também não consigo mais encontrar rubores de faces. Yesterday...todos os problemas pareciam tão distantes de mim. Os Beatles ainda são o máximo!

Anos 60, 70, 80 e por aí vai, a vida era cor-de-rosa; havia a domingueira no clube, a turma da rua. Hair, o filme – que ousadia! A rebeldia, o cursinho-vestibular, o primeiro namorado, o primeiro beijo, a primeira lágrima de amor. Tropicália. O primeiro filme proibido para menores de dezoito: Blow up. Quem se lembra? Cuba Libre. Laquê. Que horror! Eu já não gostava. Imagina só! Ainda se usava jogar arroz nos noivos na saída da igreja.  “She loves you, ié, ié, ié!”

Mas como também sempre acontece em todo devaneio existencial, surge aquele rasgo melancólico de lucidez, não me deixando esquecer que amanhã é dia de trabalho outra vez.  Século XXI, meu estresse é seu.  Ah, o delicioso e apressado dia-a-dia da vida! Roda-viva? Melhor? Só, na voz do Chico!

Assim, coloquei todas as minhas lembranças de volta na gaveta, pois essas pequeninas coisas são deliciosas maravilhas, mesmo que só aos olhos de quem as possui, sem me importar que aos olhos dos outros, sejam apenas meras chatices cotidianas.

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